Smalltown Boys (Jimmy Sommerville)
Muitas vezes podemos ver a grande diversidade que existe no meio gay. De como se manifesta uma grande variedade de matizes de Homossexualidades, como pessoas ligadas a Psicologia chamam. Me lembro de ter visto várias vezes o termo no plural, e ficava com aquela incógnita, porque? Bem, é claro que o termo homossexualismo esta ultrapassado e em desuso, visto que há muito tempo relegar homossexualidade a área de patologias e "ismo" se tornou um atraso próprio das posturas obsoletas da história, situações e posicionamentos de degradação da dignidade humana.
No início da minha afirmação (entenda = assumir-se) não tinha essa compreensão que hoje temos de que, de fato, existem várias homossexualidades. Existem aqueles homossexuais que se identificam com o termo gay e outros que não se identificam. Àqueles que se identificam com o termo gay, ou seja, vêem a si mesmo como uma identidade, assim como o negro tem a sua identidade, o índio, o judeu, etc. Entre os dessa categoria vemos que se vêem como um posicionamento, visto que se sentem padronizados, não tem como fugirem dessa postura identitária, pois enxergam a si mesmos como uma categoria singular, então facilmente se enquadram nesse rótulo... gay, ou até mesmo "homossexual" que é um termo médico. Para eles, no momento de autodescoberta acabam por insuflar-se de muita auto-estima e, de início, facilmente podem se apaixonar por outro homem, é porque levam mais em conta o senso estético (o fato de estar com alguém do sexo masculino) do que outros fatores que muito se levam em conta em gays mais adultos. Bem, vejamos os gays mais maduros, com certeza estes se vêem mais empobrecidos de relações, porque tantas coisas pesam em suas mentes e que são ressaltadas para se conseguir um companheiro, como posição social, beleza, etc. Na maioria das vezes ele sempre está sozinho, e se acompanhado, insatisfeito, é como se ele trouxesse uma insatisfação dentro dele, como se sempre suspeitasse de sua felicidade e achasse que "o relacionamento do vizinho é melhor", ou "o vizinho e mais feliz do que eu", essa insatisfação ele carrega dentro de si e é advinda de falsas crenças que a própria pessoa construiu a respeito de um relacionamento e modelos de relacionamentos, etc. Todos os gays que estão carregando essa insatisfação dentro de si precisam reavaliar seus conceitos, precisam se confrontar com esses modelos que trazem e reverem-nos para que possam ter vida intensa e com mais qualidade, ou seja, saberem o que é felicidade de fato. Talvez sejam pessoas que idealizaram demais um "objeto sexual masculino" e ficam sempre a espera ou a procura desse "príncipe" então, todos os que estiverem por perto, jamais chegarão perto dessa figura hiperidealizada, esse "deus grego" que permanece sempre em seus sonhos e enquanto estiver por lá, gerará infelicidade para seu portador, quem vive de sonhos não vive da realidade. Minha frase é a seguinte... "Não vivo de sonhos, viverei meu sonho quando ele chegar".
Gays precisam entender que o modelo heterossexual que, por mais que foi introjetado em nossas mentes através de nossa criação e formação, é algo inalcançável, porque somos gays e não heterossexuais, então, para nós as possibilidades de nos vermos felizes dentro dessa vivência linear "conhecer/namorar/casar/ser-feliz-para-sempre" é fugaz e cansa muito mais sua busca, e com certeza, eles (heteros) concorrem com muito mais possibilidades para concretizar isso, ou para que isso ocorra. Esse conceito de felicidade não é o nosso, para nós não serve, creio que nem mesmo para eles serve mais, visto tantos casamentos se desfazendo. Acredito que, enquanto idealizarmos demais viveremos de menos, e o que é felicidade, senão momentos felizes, ninguém é o tempo todo feliz, talvez dessa falsa crença surja a grande insatisfação que o gay tem a respeito das relações que ele tenha e que possa vir a ter, é necessário que ele saiba respeitar a pessoa que está ao seu lado, saber que tem defeitos e que precisa não dar-lhes importância, assim como ele mesmo tem defeitos e nao quer que a pessoa amada os saliente sempre. Isso é ver e reconhecer a dignidade do outro, com suas limitações e fraquezas, seus erros, etc. Desta categoria podemos ver pessoas mais afeminadas ou menos, depende de quanto em sua formação conseguiu se espelhar, mesmo que inconscientemente, no gênero feminino, muitos criam que "quanto mais se parecessem com o 'objeto de desejo' (mulher) do objeto de desejo (homem), mais chances poderiam ter de tê-los", daí advêm disforias de gêneros, travestismos, afetação, etc, mas cada pessoa que reveja suas posturas e posicionamentos, a partir do momento que se conheça melhor (autoconhecimento). Tanto esses tipos de que falamos se enquadram por exemplo nos respectivos tipos que a psicologia aborda, ela quando fala de homossexualidade alude a três tipos dela: Os homossexuais conscientes, os homossexuais enrustidos e os homossexuais latentes.
Quero falar agora de outro tipo de homossexual, aqueles que não se identificam com o termo gay, que acreditam que precisam se ver mais com a "identidade não sexual" mas vivencial, querem ser vistos como homens em tudo o que fazem (do imaginário viril)e nao gostam de rótulos, e quando se relacionam, acreditam que existem apenas como uma complementaridade para homens que são casados com mulheres e que precisam variar às vezes com um homem, isso sem ter que levantar alguma bandeira, ou se ver dentro de uma identidade com a qual eles não se sentem muito a vontade. Existem muitos homossexuais que são assim, eles não são gays como a categoria que falamos acima, mas são homosexuais, e muitas vezes os ativistas não os vêem com bons olhos, porque os enxergam como enrustidos, ou alguém que trai a categoria, etc. Os ativistas gays até mesmo não gostam muito da sigla usada pelos meios gays como por exemplo, HsH (Homens que fazem sexo com homens) porque eles dizem que esse termo oculta a identidade homossexual, etc. Bem, ninguém precisa levantar a bandeira e ninguém tem que ser coagido ou se sentir coagido a isso, se eles vivem assim, nao é "assado" como outros querem e gostariam que vivesse que deverão viver, as mesmas liberdades individuais que justificam e promovem a existência de um é a que justifica e promove a existência do outro. Talvez este tipo transite com os respectivos "enrustidos" ou os "latentes" da Psicologia, mas como a tendência é não mais rotular, então prefiro estar nesse quesito com aquele poeta e escritor gaúcho que disse:
"Só que a Homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade - voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade", o que Caio Fernando Abreu quis dizer com essa frase, profunda em si mesma, é que ninguém pode julgar ninguém em matéria de desejo e afetos, ao mesmo tempo que ele lança a um tempo obsoleto vergonhoso antigas posturas indecentes de taxar a homossexualidade como desvio de conduta sexual (rsrsrsrsr). Por esta também transitam na margem os pseudo-homossexuais, como os michês que atuam na prática mecanicamente (por serem heterossexuais de fato) e a antiga dupla Tatu, cantoras que usaram da imagem lesbiana apenas como merchandisign.
Agora, voltando a falar dos homossexuais conscientes e menos rotulados: os enrustidos, e a mais drástica nessa matiz, os "que não se aceitam", que podemos chamar de egodistônicos, essa categoria acaba se infligindo autoviolência na medida que introjetam demasaiadamente ideais ou adquiridos em família ou na religião, tornam suas vidas acinzentadas por acharem que o desejo tem que ser suplantado a todo custo pelo projeto de vida hetero e suas racionalidades daí advindas. Creio que neste último caso e dilema, somente a pessoa movida por um sentimento de auto-preservação pode jogar literalmente na lata do lixo os ideais heterossexuais introjetados e todas as tentativas de se enquadrar nesse modelo de vida adverso, conversões não existem, nem "reorientação sexual", o que existe é apenas uma perda de tempo olímpico que poderia ser melhor aproveitado se tais pessoas tivessem mais experiência de si mesmas e mais autoconhecimento, lá na frente se arrependerão e o tempo não poderá ser recuperado, tempo precioso esse que poderia ter sido investido na busca de um relacionamento a dois com alguém do MESMO sexo, enobrecedor e riquíssimo em si. Tais pessoas movidas por amor próprio deveriam jogar na valeta suas igrejas juntos com seus ideais e cartilhas de auto-destruição e vestirem definitivamente a camisa da felicidade.
Também como Sérgio Paulo Rouanet diz: "As relações interpessoais foram substituídas por relações entre diferenças, congeladas em identidades: os seres humanos deixaram de dialogar enquanto sujeitos e passaram a se confrontar enquanto negros, judeus, mulheres ou homossexuais", falando de conquistas, é necessário que momentaneamente ajam diferenças, pra promover um entendimento de quem é o outro, a partir dele, do ser O OUTRO, o diferente, para que aja maior compreensão dessa alteridade. Mas esse outro não pode permanecer congelado, não pode se tornar "o alienígena", mas "o igual", ou seja, "Projeto-me diferente, para ser o Igual". Não é a busca por uma aceitação social e igualdade de direitos que nos move politicamente? Os gays como qualquer outra categoria devem ser como a Onda, que se separa momentaneamente do Todo do Mar para assumir uma identidade específica necessária, para novamente se condensarem no Mar. O Mar é a Humanidade e nós gays somos necessários e importantes nesse sistema. Temos nosso valor e utilidade em toda essa rede de relações. Daí respondemos a pergunta que sempre se faz, "Qual a função do gay na sociedade se ele não procria" ? (como se a explicação da realidade gay fosse reduzida por um cientificismo biológico), Deus é sumamente sábio em tudo o que faz, pois como diz o Gênesis, Ele criou a Diversidade, então, ele criou as muitas identidades existentes, e inclusive muitas identidades gays que ainda estão a caminho nesse processo de autoconhecimento, logo, fazemos parte sim, de tudo isto que se chama existência e temos nossa importância imprescindível na sociedade e na Vida.
Indecentes seríamos se, comedores de arroz e feijão como somos, disséssemos a outra pessoa, "--Você não pertence ao projeto de Deus", infelizes seríamos se déssemos ouvido a quaisquer pessoas que queiram nos rebaixar com essas palavras e loucos seríamos se desconfiássemos por um breve momento do Amor de Deus e seu projeto em nós, gays.
Pr Victor Orellana, Mestre Espiritual e pastor.